Crescer é superar preconceitos

Crescer é ampliar horizontes, modos de ver e pensar a vida. Crescer espiritualmente é se abrir para amadurecer visões. Preconceitos se formam para serem superados. Preconceitos são dados a priori, devem ser superados a medida que outras partes do outro ou da realidade, antes obscuras, vão se revelando. Quem não consegue superar preconceitos pode estar com a visão cristalizada, fixa, pois não acompanha as movimentações do outro ou não sai do lugar. O preconceito fixo diz mais do olhar que não se movimenta ou que se fecha do que daquele que é olhado. Quem consegue superar preconceitos tem a chance de se enriquecer na convivência e ampliar visões. Certos preconceitos podem levar a posturas discriminatórias, que são motivadas por sentimentos de superioridade quanto ao valor humano de uma pessoa ou grupos. Levam, não raro, à subjugação de uns contra outros. Na postura discriminatória, alguns acreditam que são providos de um valor humano “superior” numa escala criada por eles próprios. Acreditam que suas características sociais, culturais, biológicas os fazem estar acima na régua que eles mesmos criam. Quem pode definir valor humano para outro humano? A história mostra os rompimentos com essas lógicas do “sangue azul”, do “ter alma”, do “raça pura”. Crescer é também romper com qualquer preconceito cultural, social, linguístico, étnico, racial, de nacionalidade, gênero, religião… Vencer o preconceito discriminatório exige busca por um olhar mais humilde diante do humano. Todo humano é igual e semelhante com diversidade de diferenças.

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Saúde é viver com mais integridade

A OMS diz que saúde condiz com bem-estar biopsicossocial. Isso nos mostra que o cuidado que precisamos ter para viver com mais saúde também se expande. Buscar a saúde diz da nossa ação no mundo estando no mundo em relação de interdependência com todos os seres. Saúde vai além de tratar o corpo e eliminar uma doença física. Mas a propósito, estamos cuidando do corpo? Já começa por aí: ter cuidado com a alimentação, atenção às ingestões tóxicas, fazer exercícios físicos regulares… Pensar em saúde é pensar na totalidade da vida. Como estão as emoções? Como está a qualidade das relações afetivas e sociais? Como está a vida em família? Saúde diz de qualidade das relações familiares, superar opressões e violências veladas e promovendo compreensão e cuidado, manejar conflitos, não se deixar determinar por críticas destrutivas. Saúde diz de se cuidar diante das violências psicológicas e criar relações de apoio e amorosidade. Com quem podemos contar? Saúde diz da escolha dos valores que nos norteiam, do exercício da autonomia, da vivência da autenticidade. É a ética na vida cotidiana. Saúde diz de superar preconceitos e discriminações. Como me sinto no trabalho? Ele me proporciona exercer minhas capacidades com mais integridade? Saúde diz da liberdade para exercer a espiritualidade, alcançando compreensões que trazem sentidos novos. Diz da liberdade para exercer a religiosidade, sendo a religião aquela que contribui com o desenvolvimento humano e não aquela que explora e subjuga se contradizendo na incoerência de um bonito discurso. Saúde é se importar com o outro. Que não haja violações de direitos e que se tenha direitos básicos, o direito de ter uma habitação e moradia adequada. Como anda a vida no meu bairro? A saúde da nossa cidade impacta a nossa vida. É um lugar seguro, limpo, com qualidade sonora e visual? Oferece espaços seguros de interações sociais? Podemos ir e vir, confiantes, ou temos medo constante de sofrer algum tipo de violência? Saúde diz da possibilidade de apreciar a arte e de exercitar a criatividade, de ter acesso a uma boa educação. Saúde é consciência ambiental e uso consciente dos espaços, e dos bens de consumo. Saúde é viver em um meio-ambiente com ar puro, com água de qualidade e que também tenha sua vida natural em equilíbrio. A cada um e a nós cabe uma parte a fazer para viver com mais integridade.

Ana Terra Araújo

Quando a ansiedade faz ninho

Quando a ansiedade passa dos limites vai se instalando com tamanha intensidade que deixa de ser aquele hábil pássaro mensageiro que vem avisar dos perigos do mundo e resolve fazer ninho na cabeça e no coração.

O hábil pássaro sempre dizia: “se prepara para o que há de vir”. E sempre contribuía com a preparação. Ora trazendo ramos e barro para tapar algum buraco no telhado que ameaçava encher a casa de água da chuva, ora trazendo flores para enfeitar a roupa quando havia apresentação musical na praça da cidade. Outrora trazia pena para a caneta que escrevia e assinava os trabalhos. E por vezes trazia sementes para incrementar o pão e ervas para fazer o chá quando havia visitas. Se à casa viessem malfeitores, o pássaro estava pronto para voar e chamar os amigos e os vizinhos para a defensiva. O pássaro sabia que contar com a ajuda de uma confiável comunidade afastava o assombro de aniquilação. O corpo e o coração moravam naquela casa e em meio aos afazeres diários escutavam os sinais que o hábil pássaro ansioso dava e se aprontavam previdentemente.

Mas não era só o hábil pássaro mensageiro da ansiedade que vinha trazer suas mensagens. A janela estava aberta pra receber outros pássaros amigos, com muitas outras cores, que também vinham trazer suas notícias. Os pássaros verdes traziam esperança. Os amarelos contavam histórias alegres. Os azuis eram pura serenidade, traziam notícias dos voos mais altos, e os pássaros rosas abriam as portas para os causos de amor. Naquela casa entrava e saia uma passarada só! Havia dia que o pássaro ansioso fazia coro na janela com as alegrias e com os amores. Mas depois cada um ia para um canto. Eram livres. E os pássaros se empoleiravam nas árvores e voavam para longe da janela e ali se fazia o silêncio.

Com o tempo, por algum motivo, que deve estar escrito e perdido lá no fundo do coração em meio a tanto papel, os fluxos foram se alterando. Alguma coisa aconteceu naquela casa. Alguma coisa aconteceu na cabeça e no coração. Alguma coisa aconteceu ao mundo; não que não acontecesse, na verdade, sempre aconteceu. Mas nesta casa começou a ser diferente.

Os pássaros não se davam mais uns com os outros. Quando não havia notícias para levar não sabiam o que fazer, ficavam sem sentido e direção. Quando havia muitas notícias, as cartas eram jogadas pela janela, algumas se perdiam, outras iam direto para o fundo do baú e isso trazia grandes problemas de comunicação. Também não se sabia ao certo se nestes tempos havia menos notícias esperançosas, alegres, serenas ou amorosas no mundo, mas fato é que os outros pássaros coloridos não vinham mais com tanta frequência trazer suas mensagens. Também não se sabe ao certo como se deu, mas o corpo e o coração começaram a privilegiar as notícias trazidas pelo pássaro ansioso. A janela foi ficando menos colorida, afinal, se os outros pássaros apareciam não eram tão ouvidos como antes.

O hábil pássaro ansioso foi ficando mais ansioso do que costumava ser e começou a dar sinais de que a ansiedade passava dos limites. Era tanta notícia trazida pelo pássaro ansioso que atazanado não sabia mais se aquelas notícias que andava carregando de um lado para o outro eram realmente úteis àquela janela e se aquilo tudo que trazia nas cartas ia realmente acontecer. Por via das dúvidas, levava tantas quantas notícias achava necessário, com certa obsessão. Havia notícias que eram muito pesadas para carregar, ele ficava aterrorizado voando baixo quase tocando o chão. Atazanado, o pássaro ansioso não conseguia pensar de forma amena e não contribuía mais de forma hábil com as preparações, ora não encontrava ramo, barro, semente, ou erva para levar à casa, ora exagerava nas proporções. Com tudo isso que estava acontecendo dentro e fora, no mundo, e diante das perspectivas de futuro, a cabeça e o coração passavam muito tempo preocupados e acabavam passando os dias lendo as cartas trazidas pelo pássaro ansioso e não conseguiam se concentrar em suas outras atividades. Sentindo-se impotentes tentavam estratégias para proteger a casa, ou meios de fugir dali.

As notícias eram muitas, a seleção das notícias eram pacas, a atenção dada a elas não dava espaço para outras coisas. A casa sentia-se desprotegida e insegura. Os pássaros estavam confusos. Parece que não havia mais confiança. Se fosse necessário chamar alguém, não se sabia em quem confiar, e não se chamava ninguém.

O pássaro ansioso estava sempre entrando e saindo pela janela… Era muito visto por ali ao pôr do sol, aos domingos à noite, e quando se ia dormir. Um dia ficou tão assustado que preferiu não mais voar para fora da casa. Era tanto galho para carregar que resolveu fazer ninho ali mesmo na cabeça e no coração. Estes não se deram conta do feito, embora acreditassem que a solução para os problemas era fechar a janela. E fecharam! Nenhuma outra notícia entrou ali. Ao pé do ouvido, o pássaro ansioso falava o dia todo na cabeça, que olhava ao redor e via que estava tudo muito estranho. Com nó na garganta falhavam as melodias que o pássaro ansioso habilmente costumava cantar, mas agora sem voz e sentindo-se sem ar acabava bicando o coração a procura da janela para respirar. Sem poder voar, não tinha e nem sabia a quem chamar, ficou ali, ansioso. E foi assim, até que um dia…

Cansaço: palavra polissêmica

Físico. Emocional. Existencial. Falta de nutrientes. Distúrbio hormonal. Consequência de uma doença. Sente que a vida está passando e não tem feito nada. Desânimo difuso. Frustração. Desesperança. Choro fácil. Todo dia é a mesma coisa. Onde ficaram os sonhos? Uma correria para lá e para cá. Estresse. Sobrecarga. Estafa. É muita coisa para fazer. Choro não previsto. Parece que tudo resolveu acontecer hoje. Mulher maravilha. Muita coisa para conciliar sozinha. Falta apoio. Um chama daqui, outro chama de lá. Demandas. Ninguém ajuda. Falta apoio. Desorganização. Controle. Cansei: desistência temporária para lutar. Não aguento mais: sem forças. Quando enfim consegue sentar, alguém chama, vontade de sumir. Explosão emocional: pode haver brigas ou xingos. Brigar cansa, falar cansa, não falar cansa. Não deixa de dar atenção. Faz suposições e se magoa. Enfim consegue o tão desejado sossego para não fazer nadinha! Não sente conforto na calma, parece estranho. Logo, inventa coisas para se cansar. Inquietação. Quando pode dormir, a cabeça não para. É muita coisa na cabeça. Ansiedade. Dormiu um sono cansado. Acordou: se sente só. Ninguém vem visitar, poxa! Mas que inconvenientes são as pessoas que aparecem sem avisar e chegam para conversar bem na hora dos afazeres. Com tanta coisa para fazer, não pode nem dar muita atenção. Com tanta profusão de vivências, nem querendo, pode dar atenção. Não faz por mal. Acordou o cansaço: lento ou agitado. Toma café ou não toma nada. Não pode nem reclamar, pois reclamar é feio, dizem. Cansaço: palavra polissêmica para o dicionário de uma psicoterapeuta. A linha é tênue: pode ser normal, pode ser sinal de adoecimento, precisa cuidar. As vezes é modo de ser, outras vezes é forma de se manter sempre ativo, dizem que é sucesso. Não faz por mal. Enfim…os sentidos são muitos, qual significado tem na sua vida? Para o cansaço, há respostas, que sempre sairão das próprias bocas cansadas. Para descobrir: a necessidade de conversar com a dor. Para responder: a necessidade de ir respondendo, mesmo que aos poucos. Escute seu cansaço! Converse! Não faz por mal.

Texto: Ana Terra Araújo
#converse

Eu reconheço a minha história – uma postura de autorrespeito

O termo respeito é derivado do latim respectus, que corresponde ao uso do substantivo do particípio passado do verbo respicere, cujo significado literal é “olhar para trás”, “olhar de volta”, “considerar”. Do latim re – de novo, e spicere – olhar.

Neste sentido, eu acredito que cultivarmos o autorrespeito é podermos olhar com generosidade para pontos de nós mesmos para termos uma outra visão, voltar o olhar novamente para considerar aspectos que não foram considerados, com gentileza. Voltar o olhar para a nossa história é reconhecer o valor que ela possui, e isso tem a ver com respeito, pois respeito tem a ver com “ser digno de consideração “. É poder analisar detalhadamente, observar, averiguar, assumir que é uma história legítima. É dar-se conta de tudo o que foi vivido e realizado. Não é fácil!

Nossas histórias são compostas de dores e alegrias, encontros e desencontros, perdas e conquistas, erros e acertos, medos e esperanças, frustrações e plenitudes. Diversos momentos, experiências, circunstâncias e oportunidades e escolhas vão configurando as narrativas dos nossos dias. São capítulos de histórias que vão se dando e nos envolvemos em uma rica e complexa narrativa. Muitos acontecimentos e circunstâncias do cenário não estão sob o nosso controle, acontecem. Por outro lado, muitos enredos são frutos de nossas escolhas, atitudes e disposições.

Olhar de novo para a nossa história é reconhecer o que foi construído e vivido. Por vezes há sentimentos de culpa, vergonha, arrependimento, insatisfação, mágoa, raiva, decepção. Por vezes lágrimas derramamos e nos entristecemos. Outras vezes, apreciamos com orgulho, amamos a narrativa, nos deleitamos com as lembranças e nos permitimos gargalhar, sentimos satisfação, com o que foi vivido, e entusiasmo.

É fato, nossa história nos trouxe até aqui hoje, através dela nos tornamos quem somos e por ela atravessaremos a ponte para o outro lado, o lado que ainda queremos viver. Há ponte! Há caminhos! A história segue. Um capítulo termina, outros começam. Mas, para seguir adiante sem nó a sufocar a garganta é preciso nos reconciliarmos com nossa história: acolher os machucados, cuidar das feridas, desidentificar-se com as estigmatizações ocorridas, e se afastar das violências sofridas, e compreender os ciclos, e aprender com o percurso. É preciso também reconhecer os pontos fortes, as habilidades desenvolvidas, as atitudes sábias, as potências pessoais, a nossa marca única no mundo e o que fez e faz sorrir. É poder dizer: eu reconheço a minha história.

Há que se perdoar, há que se vislumbrar em novos dias. O sol continua a nascer e ao amanhecer o galo canta, as cabras correm para se alimentar do verde, as janelas se abrem, vozes ressoam nas ruas, mãos varrem a calçada, há buzinas, há crianças. Um mundo a se compartilhar! Há que se dar esse abraço!

Tradições Familiares

Todo domingo depois do almoço é um momento em que as mulheres da minha família se reúnem espontaneamente para fazer as unhas e conversar. Hábito que se tornou tradição e vem com afetos que preenchem com cuidado. Fazer as próprias unhas ou as unhas umas das outras é algo forte entre nós. Habilidade que eu desenvolvi cedo na vida. As novas gerações já se acercam deste hábito com gosto. Quem diria? Eu me lembro de muitos momentos da infância em que ficávamos ao redor das tias fazendo as unhas na mesa da varanda ou da cozinha… e já estive com minha sobrinha naturalmente a fazer unhas na varanda e na mesa da cozinha. Vejo que este costume é alegre, é amoroso, é convivência e autocuidado e me faz bem e faz bem às mulheres. Eu gosto disso!

Tradições familiares, temos nos dado conta de como elas estão presentes em nossos dias? Aqueles costumes, hábitos e crenças que vão se repetindo e vão se consolidando ao longo do tempo e acabam sendo mantidos e transmitidos. Certas tradições tem o poder de unir a família, de trazer o sentimento de pertencimento, e vão formando laços fortes em que ficamos ligados com intimidade e afetividade. As tradições nos fazem sentir que aqueles costumes fazem parte de nós, são íntimos a nós. E podemos nos identificar com essas tradições ao ponto delas comporem a nossa identidade e configurarem a forma como pensamos, agimos e nos posicionamos no mundo – a personalidade, e um pouco de quem nós somos. Há tradições integradoras e benéficas, nos configuram na mente com beleza e transcendência, sentimos orgulhosos de pertencermos a elas, fazemos questão de criar memória, para mantermos vivos os afetos, e a história que nos engrandece e nos liga uns aos outros com satisfação.

Em contrapartida, há também tradições que são avessas ao nosso modo de pensar e agir, e ao invés de nos identificarmos com elas, elas nos parecem estranhas, não nos correspondem, não nos preenchem. Podemos nos sentir como peixes fora d’agua e confusos, com dificuldades de nos  compreendermos, dificuldades de nos relacionarmos. E por querermos romper com estes costumes e crenças acabamos nos afastando das pessoas. Certas tradições não são bases em que podemos nos apoiar. E este estranhamento ou discordância pode nos levar a questionar e a romper para buscarmos o que vale a pena para nós. Romper também pode ser parte importante do processo de nos construirmos em quem somos e quem desejamos ser. Faz parte do crescer romper com alguns costumes ou crenças para adquirirmos outros e ampliarmos horizontes. As vezes podemos incorporar as tradições que não nos correspondem apenas pelo desejo de pertencimento à nossa família e isso nos faz agir com inautenticidade. Há tradições que nos machucam e podem aprisionar. É preciso muita auto-observação e consciência para escolher nos desligar disso que não nos representa. Romper nem sempre é fácil, pode vir com muita dor, muita confusão e conflitos. É conflituoso nadar na direção contrária. Podemos achar que estamos perdendo nossos elos de ligação… Talvez não queremos perder nossas ligações, mas somente não queremos carregar mais aquelas tradições… Não é fácil!

É um alívio romper e viver diferente daquela tradição que não nos representa. Mas é também apaziguador pertencer a tradições que revigoram com bons afetos nossos dias, criam encontros, fortalecem nossas convivências. No compartilhar trocamos, nos renovamos e nos abastecemos.

E as perguntas que ficam são: temos ciência dos costumes e hábitos que não nos representam?  Temos conseguido romper sem necessariamente desfazer os laços afetivos e a convivência? Para romper é necessário distanciar fisicamente das pessoas? Temos conseguido compreender nossa história, exaltar o que é bom, desfrutar das tradições que nos correspondem e nos tornam vivos de afetos?

Ana Terra Araújo

Restaurar Feridas

Tigelas de cerâmica. Heranças dos antepassados. Há também objetos escolhidos para compor a nossa casa, usos cotidianos. São como as nossas histórias e nossas vidas. São como as heranças recebidas dos nossos familiares, são como as relações que nos estruturaram e que nos estruturam. Nós crescemos e nos formamos, nos tornamos quem somos a partir de tudo o que recebemos, valores, costumes, histórias e de tudo o que construímos nas vivências com os outros e o mundo.

As tigelas da nossa existência foram moldadas por mãos de muitos e pelas nossas. Todos nós já recebemos heranças cuidadas, preciosas e imaculadas. Tigelas inteiras, guardadas, protegidas, amadas, cuidadas com zelo. Mas também já recebemos heranças quebradas, algumas remendadas, outras maltratadas, cacos, vasos lascados, furos nos cântaros sem remendos. Aí a água nos vasa. Sentimo-nos largados, fragmentados, soltos e perdidos, escapantes, desunidos. Estrutura danificada, desestruturada. 

E crescemos assim tentando juntar os cacos, colar as partes, viver com o que temos. Por vezes, com violência, quebraram os pratos diante dos nossos olhos, nos machucaram, nos assustaram. Quebram aquilo que temos de precioso! E continuamos a quebrar, sem outras referências e por descuido, por ignorância, por não sabermos segurar o pires com firmeza, talvez… 

Mas apesar de tudo  temos em nós a arte de restaurar feridas… e por vezes precisamos de ajuda, de outras relações, de outras referências e de uma nova cultura, uma sociedade que saiba também a arte de reunir e não apenas de quebrar. Mas em nós vamos restaurando à nossa maneira. Tapamos furos, sobram outros. Vamos dando o nosso jeito. Somos criativos. Com nossos vasos na cabeça carregamos a nossa água com a criatividade que nos cabe. 

Contudo, em nossa casa podem haver muitos utensílios lascados, em perigo de novamente uma xícara destas, lascadas, cortar a nossa boca. É ferida aberta prestes a sangrar os lábios de alguém. Aquilo que se quebra, que se lasca na nossa história, na nossa herança, na relação com os costumes e afetos diários do hoje e do passado faz parte de nós como dor, como imperfeição, como machucado, como tragédia. Que tragédia ver minha louça mais rica destroçar-se. 

Nós temos saídas! Aquilo que se quebrou e ficou como ferida aberta ou que está prestes a cortar os lábios e causar feridas pode ser reconstituído, recomposto, reconstruído, não de qualquer forma, mas com cuidado, trabalho minucioso, delicadeza e processo. É um processo de beleza e que chamamos de arte. 

Como é lindo este processo de restauração de nossa história, de olhar amoroso para nossas imperfeições. Quando somos capazes de restaurar e remendar nossas feridas, com o ouro da vontade de ainda degustar um chá naquela mesma xícara, nós veremos que aquela xícara ganhou novo brilho e tem muito mais valor. Quando a gente reelabora, reconstitui colocando com criatividade a nossa capacidade de reunir o que ficou quebrado, nunca mais aquela xícara será como antes. Sua beleza se elevou a outro patamar, a outro valor, ainda maior. E é obra-prima e única. Não há outra igual! 

É amor-próprio reconstruir-se. É dar novo sentido. É não desistir. Os japoneses criaram o kintsugi, a arte de reconstituir com ouro objetos quebrados, que deixam transparecer as marcas das fragilidades vividas. Como somos frágeis! Mas da reconstrução mostramos autenticidade, ninguém se quebra da mesma forma, com os mesmos cacos. Ninguém se reconstrói da mesma forma, com o mesmo desenho.

Esse processo de reconstrução nos torna únicos e muito mais belos do que antes. Nossas marcas de dor são expostas. Elas revelam fragilidade, trabalho, tempo de cuidado, beleza, autenticidade, paciência. É um processo que aos poucos fazemos com elegância. É quando aprendemos que de nossas dores podemos reluzir! 

Ana Terra Araújo

O medo de estar perdendo algo

Não é sobre o medo de estar perdendo algo, mas sobre achar que irá perder uma coisa muito boa e que vai se arrepender para o resto da vida. Primeiro é achar que vai perder, depois achar que vai se arrepender, depois imaginar os prejuízos que terá ao perder e achar que vai perder “a melhor coisa da vida”. Isso faz parte, nos ajuda a pensar as coisas para ponderar. É fato, é preciso muita ponderação! Mas além desse medo, está aquele outro medo que nos faz hesitar e nos paralisa para agir. E aquele medo que vem depois de agir, a insegurança sobre se fez a escolha certa ou não.

Esses medos todos, vez ou outra, nos assaltam quando surgem situações em que precisamos escolher entre uma coisa e outra. Ninguém quer trocar uma bicicleta por um queijo. Ops… é verdade que em certas circunstâncias mais vale ficar com o queijo. Mas digamos que a bicicleta seja mais legal do que um queijo, como fica isso? Eu mesma já troquei uma “bicicleta” por um “queijo” achando que estava fazendo o melhor. A gente se equivoca em nossas convicções. Dentro da avaliação que eu fiz na época, considerei que aquilo que as pessoas estavam chamando de “bicicleta”, para mim, era um grande “queijo”. O que elas achavam que era um queijo da furada eu olhava e via a bicicleta dos sonhos. Aí depois descobri que era o grande queijo da furada. E dessa vez, por incrível que pareça, senti o maior medo de sair fora daquele queijo da furada. Interessante não é? Parece que a gente se perde nos critérios e precisamos olhar e dizer “confia, tá sentindo o cheiro de queijo? É queijo da furada”. É preciso muita ponderação! E aí é bem mais legal ouvir “eu te ajudo a levantar dessas nuvens de bicicletas” do que um ríspido “bem que te avisei”, não é?

Que história é essa de queijo e bicicleta? O que eu estou tentando dizer com muita dificuldade sobre queijos e bicicletas é que tudo tem que ser bem avaliado e nem sempre as coisas parecem ser como são. Nós precisamos ficar bem atentos para ouvir fatos e fenômenos e intuições. E nem sempre acertamos! Por isso a vida é um constante aprender, construir, refazer o caminho e RECONSTRUIR. Por isso eu gosto muito da psicoterapia, ela nos ajuda a reconstruir o que ficou arrasado pelo caminho.

Construção é uma capacidade humana. E nesta capacidade para construir também somos dotados ou vamos nos dotando a ter critérios para avaliar as coisas. Nós temos critérios para tocar essências. Eu também já tive muitas bicicletas legais! Quando pensamos sobre querer o melhor, estamos pensando no que é essencial para nós, o que faz uma coisa ganhar muitos pontinhos em relação à outra. Essencial, aquilo que está na estrutura, tipo rodas de bicicleta, que sem elas não dá para andar.

Diante de uma situação de angústia e indecisão sobre “ficar ou partir” vale se perguntar “o que há de essencial nas situações que faz com que um lado possa ganhar mais pontinhos do que outro?”. O que me faz preferir uma bicicleta a um queijo ou um queijo a uma bicicleta? E onde está o queijo real desta história e onde está a bicicleta real? É preciso compreender os critérios e tocar essências. As vezes a coisa não se mostra como tal, ou por algum motivo, não a vemos como tal.

Nem sempre temos clareza de nossos critérios. A dúvida é justamente aquilo que nos indaga e faz abrir nossas percepções. Que critérios não estão claros para que eu duvide se quero isto ou aquilo? Além dos critérios, existe uma outra coisa envolvida que é a incerteza. Não temos garantias do que será e do que poderia ter sido. O “será” e o “mas e se” tanto podem nos ajudar como nos perturbar. Outra questão envolvida é que além de buscar critérios para avaliar e de compreensão sobre as incertezas é buscar ter forças e coragem para impulsionar as ações.

As vezes temos critérios, já entendemos que não há garantias, mas a gente não tem forças para agir e sustentar uma decisão. Sair de um lado para ir a outro fica super difícil. Ou, as vezes temos força para agir mas nenhuma compreensão sobre os critérios e se são bons critérios e, normalmente, neste caso, a gente não costuma temer e isso é também um perigo. As vezes temos os critérios, temos força e condições propícias, mas admitir as incertezas nos chateia e a gente hesita e é dizer “apesar das incertezas, como eu resolvo isso?”.

Ficar no relacionamento ou partir? Ficar no emprego ou buscar outro? Ficar neste curso ou mudar para outro? Fazer parte deste grupo ou ir para outro? Engajar-se em obter respostas que nos faz sentir e dizer “eu decidi”, com consciência, nem sempre é fácil. Um tanto de pensar para avaliar e escolher. É bom não ignorar o que é essencial. Muitas vezes a pessoa me diz “será que isso vai ser o melhor?” e eu pergunto “como estão seus critérios nesta balança?”.

Em um momento de insegurança, uma pessoa me diz algo do tipo “acho que perdi, escolhi errado em ter saído” e pergunto ” você gostaria de estar lá?” e a pessoa responde “não, daquele jeito não”. Então, é legal rever o processo que levou à escolha. E se um dia constatar uma má escolha real que lance arrependimento, acolher a dor, e engajar-se em reconstrução.

Sabe, nada acontece igual para todo mundo. Queijo ou bicicleta é algo que cada um vai precisar olhar e rever bem de perto.

Ana Terra Araújo de Oliveira

Sobre fazer o que se acredita

Será que fiz a coisa certa? Será que vou conseguir? Isto ou aquilo? Casar ou comprar uma bicicleta? Falar ou não falar? Ao contrário da música, será que me contentarei em ter aquela velha opinião formada sobre tudo ao invés de preferir ser uma metamorfose ambulante? Será que sei quem sou? Importa para mim o que vão pensar de mim? Perdi meu tempo? Será que meu jeito tem lugar neste mundo? Sou bem diferente! Na verdade, há algo de errado em não ter grandes aspirações e querer ter uma vidinha tranquila? Essas e infinitas outras dúvidas e frustrações e medos surgem todos os dias e eu mesma presencio muitas delas no meu trabalho de psicoterapeuta.

Conseguir ser mais si mesma e seguir o que se acredita não significa que sempre estará tudo certo e fluindo, e não significa que não haverá dúvidas e desafios. É desafiador manter nossa integridade e autenticidade diante de tantas demandas externas. Mesmo porque vamos nos construindo com o tempo.

Mas diante de tantas “fórmulas mágicas”, “ideais de sucesso”, “padrões de beleza”, diante do “status” que dizem que devemos seguir, vejo que deixar de “viver-se” pode ser bem adoecedor, principalmente quando nos perdemos de nosso eixo mais espontâneo. Somos tentadas a nos desviar de nós mesmas.

Os desafios cotidianos nos exigem respostas pessoais, mas sentimos que exigem também que sejamos “um jeito” já estabelecido arbitrariamente fora de nossas conexões. Sabemos que nem sempre esse “jeito” tem a ver com a gente. Muitas vezes temos que lidar com cabeças balançando em desaprovação. Mas essas desaprovações podem ser nossas visões interiores de medos apenas nossos projetados nos outros. Pode ser também que estejamos colocando muito peso ao que os outros dizem ou pensam de nós, ou querem de nós. O peso das expectativas alheias, e  principalmente as nossas próprias expectativas sobre nós mesmas é uma avalanche prejudicial, se deixarmos pesar. É como um pinheiro, ou se deixa a neve deslizar, ou ela quebrará o pinheiro na branquetude fria. É preciso certas habilidades.

Temos também nossas próprias dúvidas e inseguranças, naturalmente. E acho que dúvidas não são ruins, pelo contrário, às vezes são muito necessárias para nos fazer pensar nas possibilidades e ponderar e também nos preparar e fazer aprender. Mas sei também que em algum momento as dúvidas frustrantes precisam ser superadas, embora surgirão outras.
Sabe, eu mesma um dia desses tragicamente me peguei pensando algo do tipo: “nossa, vou fazer aniversário, e aqueles meus sonhos mais profundos da minha juventude? Não consegui concretizá-los ainda, poxa”.

É uma proeza ser si mesma e fazer o que se acredita! Em princípio nos descobrir, depois nos preparar, depois nos desvencilhar das nossas próprias confusões, depois ter clareza de quem somos, do que queremos, o que absorver, o que assimilar, o que atravessar e quando simplesmente nada fazer e somente apreciar e esperar. Depois vem a parte que é se situar no espaço entre tantos outros e fazer o que acreditamos, o que nos realiza. Mesmo que seja compreender que a proeza da vida de uma pessoa não seja algo tão fabuloso aos olhos externos, mas algo que precisa ser reconhecido pela própria pessoa como sua própria e valiosa proeza. Digo isso pois hoje há uma pressão para ter que fazer algo muito extraordinário da vida segundo os parâmetros de alguns. Não acho que a corrida seja uns contra os outros para ir atrás de ser grande, ou corresponder a um certo estilo visto como o melhor, e que só poucos podem conquistar. A questão é mais profunda, é encontrar seu próprio lugar.

Mas há momentos que  parece árduo se posicionar. Parece ser mais fácil seguir o padrão, o esperado, e o “normal”. Contudo, é tão mais fácil que cansa, que complica ainda mais, que nos deixa totalmente esgotadas, nos drena a vitalidade, nos dá náuseas….e por isso a gente retorna e não se rende, pois o fácil é intragável. É quando lembro de Jung ao dizer que a pessoa que tem certa atitude espontânea quando embarca numa constante repressão de sua atitude espontânea pode entrar numa grande neurose, cuja saída só é conseguida com o restabelecimento de sua atitude mais espontânea. Parece que para certos gênios viver de forma espontânea os mantêm conectados com suas aspirações.  Digo que  recentemente conheci a história de Philippe Petit, gênio, e fiquei encantada e tensa, tensa pois não sou ele, não estou no lugar dele. Mas encantada pela espontaneidade, coragem, determinação e sua simplicidade de vida, muito audaciosa. Ele tinha grande conhecimento de suas próprias capacidades.

Para Petit não havia nada que o desviasse, ele estava convicto de sua corda bamba, com tremenda certeza: “eu sou um equilibrista”. Então, quando ganhamos confiança ao afirmar nossas buscas mais genuínas, fazer o que se acredita é um caminho inevitável. Por ser o mais autêntico, é o mais realizador. Para Petit, as torres o chamavam, a corda bamba era seu lugar de conexão profunda consigo. Ufa, que alívio para mim que não sou Petit, e que graça para Petit que naturalmente estava pleno, pois estava em um lugar muito seu: em cima da corda. Para Petit, ele não poderia sair da corda em dúvida, a dúvida precisava ser superada para exaltar a confiança.

Mas se na vida os planos parecerem fracassar, e se alguém nos disser “sim, você perdeu”, ou “fim da linha”, ou “desça já daí”, busque reviver seu lugar interior tão seu e espontâneo que poderá chegar a vislumbres apaziguadores de quem conhece as próprias motivações e capacidades. Então, busque se conhecer!

E lendo as  palavras de um outro gênio, Darcy Ribeiro, compreendi que acima de tudo é preciso saber onde está o seu próprio lugar. Suas palavras simplesmente inundaram minhas convicções com reconfortante paz, e encanto de quem ao falar de fracassos tem confiança de vitórias. Darcy disse com estas palavras e me fez sorrir leve:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Sim, eu detestaria estar no lugar de quem me venceu. Há valores para mim que são inalienáveis. Tenhamos os gênios como inspiração, mas encontremos o nosso próprio lugar. 

Ana Terra Araújo